"Às vezes não sei o que hei-de fazer da vida, vejo os dias sucederem-se num comboio estúpido e sem estações conduzido por um maquinista louco, que não faz a mínima ideia onde acaba a linha e o pior é que nem quer saber. O comboio desliza sobre os carris cada vez mais depressa como se a qualquer instante perdesse a aderência e descarrilasse e então imagino as carruagens tombadas com as vísceras das minhas memórias espalhadas por todo o lado, a vida desmantelada naquilo que já foi uma existência rica e cheia e que agora não vale nada.Ou então o comboio transforma-se num pássaro, crescem-lhe asas e cruza os céus com o peso das carruagens às costas que carregam o fardo das minhas memórias, as asas são enormes e desajeitadas e os comboios não sabem voar, o que vejo no céu é um monte de ferro e entulho com asas de chumbo à procura de uma nova dimensão, no derradeiro esforço de tentar, mais uma vez, outro caminho, outra saída para uma existência que perdeu o sentido e o lugar.
Às vezes não sei por que é que ainda estou vivo, tenho quatro enfermeiras de serviço em casa, a Hilda, a Noémia, a Amélia e a Linda – deve ser Ermelinda, ou Deolinda, não sei - as minhas filhas vêm–me ver todos os dias, a mais velha está sempre triste e a mais nova está sempre bem-disposta, as duas revezam-se para que não me sinta só, mas isso não é possível, porque quem já escolheu a morte fica para sempre sozinho, apenas descansa quando ela chega.
Vejo-a de noite, umas vezes vestida de branco e outras de preto, às vezes traz flores, outras só uma foice enfiada no cabo de uma vassoura e então grito com ela. Dantes dizia-lhe vai-te embora mas desde que a minha mulher deu uma queda no corredor e as minhas filhas a levaram e nunca mais a trouxeram, digo-lhe fica aqui, leva-me de uma vez por todas, estou velho e cansado, já só dou trabalho e despesa, não aguento mais a tristeza da minha filha mais velha e a energia da mais nova, leva-me depressa, leva-me, leva-me.
Mas a morte é estúpida, é louca e é má, porque só leva quem faz falta, como a filha da Noémia que se sumiu com trinta e nove anos num mês, um cancro apanhou-a no caminho e deixou dois filhos pequenos, agora a Noémia tem que se ir embora e logo a Noémia que é a única que fala comigo, não há direito.
Já quis dizer à minha filha mais velha que não quero outra enfermeira, que elas são más, puxam-me as pernas e os braços quando me passam para a cadeira de rodas e
sinto-me desconjuntado como um espantalho com quatro colheitas em cima, mas as palavras enrolam-se debaixo da língua e quando saem já não querem dizer nada, por isso desisti de falar e agora oiço cada vez melhor, o médico disse-me há quarenta anos que ia ficar surdo, mas é mentira, oiço tudo. Oiço os passos das minhas filhas e as conversas das enfermeiras, oiço a voz da minha mulher e o ruído do estrondo quando caiu no corredor, oiço as notícias e os documentários, oiço a Fátima Lopes e a Júlia Pinheiro, oiço os meus intestinos zangados com o corpo a torcerem-se de raiva e a silvarem como o comboio da minha imaginação, oiço as vozes dos meus netos quando me visitam, comprometidos e atarefados entre as reuniões e as fraldas dos filhos deles, oiço o médico a suspirar e a dizer "não sei como é que ainda está vivo".
Hoje vão-me levar para a clínica para fazer exames e se me encontrarem um comboio na barriga e umas asas nas costas, pode ser que não volte, pode ser que a morte por lá seja mais expedita, afinal morrem muito mais pessoas nos hospitais do que em casa, ela que apareça de branco ou de preto, tanto me faz, o que eu quero é que a Noémia vá para casa tratar dos netos, que a minha filha mais velha enterre de vez a tristeza e que a mais nova deixe de se cansar a fingir que está tudo bem, que os meu netos deixem de passar por cá a correr entre uma reunião e uma fralda e digam
coitado do avô, estava tão velhinho, foi melhor assim
nunca gostei que tivessem pena de mim, penas são coisas de pássaro e não de gente, mas também já não sou gente, estou vivo por um fio.
Hoje pela manhã, mesmo antes da ambulância chegar, quando a minha neta mais nova, que sempre foi mal comportada e rebelde, me veio ver e lhe dei a mão, embargou-se-lhe a voz e disse "é a primeira vez que o avô me dá a mão" e ficámos os dois ali a olhar um para o outro naquela doçura de quem já não pode falar, percebi que toda a vida tinha sido duro com ela, com as milhas filhas, com a minha mulher e com o mundo e, por isso, quando a ambulância chegou para me levar para o hospital, eu pensei, afinal ainda bem que não morri, mas agora que vejo o comboio a estatelar-se na terra depois de um voo frustado, já me posso ir embora e deixar desempregado o maquinista maluco que não faz a mínima ideia onde acaba a linha e ainda bem que também não quer saber."
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Eu gosto do impossível, tenho medo do provável, dou risado do ridicúlo, e choro quando quero.